Um dia para conscientização sobre o Diabetes
- 22 de ago. de 2024
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O dia 14 de novembro foi escolhido para comemorar o Dia Mundial do Diabetes com a finalidade de conscientização a respeito dos reflexos do diabetes sobre saúde da população.
Apesar de muito prevalente, muitas pessoas ainda possuem conceitos equivocados sobre esta doenƧa crƓnica, progressiva e incapacitante.
Dados recentes mostram uma prevalência de até 9% da população brasileira vivendo com diabetes, com aumento a cada década.
Atualmente nosso paĆs ocupa a sexta posição mundial em nĆŗmero de pessoas acometidas pela doenƧa, com previsĆ£o de chegar a 643 milhƵes em 2030 e a 784 milhƵes em 2045.
Ć imprescindĆvel falar sobre diabetes pois uma infinidade de casos pode ser evitada a cada ano, prevenindo tambĆ©m incapacidades permanentes ou atĆ© mesmo mortes prematuras.
O diabetes Ć© a terceira principal causa de mortalidade no Brasil, só perdendo para doenƧas cardĆacas e neoplasias.
Com certeza você conhece uma pessoa que possui diabetes, mas você realmente sabe o que é esta doença?
A maioria das pessoas pensa no diabetes como um estado de excesso de glicose (açúcar) no organismo, mas, na verdade, isso é apenas uma consequência de um complexo mecanismo patológico.
De maneira simplificada, o diabetes mellitus Ć© uma doenƧa na qual o indivĆduo nĆ£o produz insulina ou nĆ£o consegue utilizar adequadamente a insulina que produz. A insulina, por sua vez, Ć© um hormĆ“nio produzido no pĆ¢ncreas e Ć© responsĆ”vel por "buscar" a glicose que estĆ” na corrente sanguĆnea (adquirida atravĆ©s da alimentação) e carregĆ”-la para dentro das cĆ©lulas. Em uma pessoa sem diabetes, nĆ£o importa quanto açúcar Ć© ingerido, praticamente todo ele serĆ” captado e transportado para seus respectivos tecidos e órgĆ£os para ser utilizado como substrato de energia. Quando se trata de uma pessoa portadora de diabetes, havendo falta de insulina ou dĆ©ficit do seu funcionamento, grande parte da glicose ingerida permanece no sangue em altas concentraƧƵes e, consequentemente, em "faltaā dentro das cĆ©lulas. Se nĆ£o dispomos de glicose (fonte de energia) dentro das cĆ©lulas dos seus rins, por exemplo, vocĆŖ jĆ” pode imaginar que isso terĆ” consequĆŖncias no futuro.
Outra confusão bastante comum é sobre a classificação quanto aos tipos de diabetes. Existem vÔrios tipos e estes são classificados de acordo com sua etiologia, os principais são o Diabetes Mellitus Tipo 1 e tipo 2, entretanto existem subtipos menos frequentes.
OĀ Diabetes Mellitus tipo 1Ā (DM1) Ć© uma doenƧa auto-imune, de inĆcio mais comum na infĆ¢ncia, na qual hĆ” uma perda total da capacidade de produção de insulina por destruição das cĆ©lulas beta pancreĆ”ticas (cĆ©lulas responsĆ”veis pela sĆntese de insulina). Ć uma doenƧa de surgimento sĆŗbito e cujo tratamento deve ser iniciado imediatamente.
OĀ Diabetes Mellitus tipo 2Ā (DM2) pode ter vĆ”rias causas e comumente Ć© diagnosticado em adultos e idosos. Neste caso, o pĆ¢ncreas ainda Ć© capaz de produz insulina, porĆ©m o indivĆduo Ć© acometido por um estado de "resistĆŖncia insulĆnica", ou seja, a insulina nĆ£o consegue agir adequadamente. Com o passar dos anos, o portador da doenƧa pode desenvolver em um estado de deficiĆŖncia de insulina. As principais causas doĀ DM2Ā podem ser obesidade, história familiar de diabetes ou uso de medicaƧƵes.
Outros tipos menos comuns são o Diabetes Gestacional, Diabetes secundÔrio ao uso de medicamentos, Diabetes pós transplante de órgãos, MODY (maturity- onset diabetes of the young), LADA ( latent autoimmune diabetes of adulthood - uma variação do DM1 no adulto).
Quando suspeitar da doenƧa?
Ā O diabetes tipo 2, na maioria das vezes, manifesta-se como uma doenƧa āsilenciosaā, ou seja, nĆ£o provoca sintomas nos primeiros anos de surgimento, por isso estima-se que atĆ© 50% das pessoas que possuem diabetes, ainda nĆ£o saibam do diagnóstico. Quando descompensado, podem aparecer sintomas como aumento da sede ou da fome, aumento da frequĆŖncia para urinar, fadiga, visĆ£o āborradaā ou emagrecimento inexplicado.
JĆ” o Diabetes tipo 1, como falamos anteriormente, Ć© uma doenƧa de inĆcio e evolução rĆ”pidos, por isso Ć© importante que os pais estejam atentos aos sintomas. Se a crianƧa ou adolescente apresentar fadiga, sonolĆŖncia, emagrecimento, aumento da sede ou da frequĆŖncia para urinar, dor abdominal e vĆ“mitos de inĆcio sĆŗbito e sem causa aparente devem ser levadas a um serviƧo de emergĆŖncia com a maior brevidade possĆvel.
Qualquer glicemia elevada confirma o diabetes?
O diagnóstico de diabetes é confirmado sempre com base em exames de sangue e, assim que confirmado, deve ser prontamente tratado. Duas medidas de glicemia de jejum maiores ou iguais a 126 mg/ml ou uma medida aleatória de glicemia acima de 200 mg/dl jÔ confirma a doença. Outros testes diagnósticos estão citados na tabela abaixo.

TTOG: Teste de tolerância oral à glicose.
NĆ£o adie o inĆcio do tratamento.
O tratamento do diabetes atualmente visa muito além de manter os alvos de glicemia e evitar uma ampla variabilidade glicêmica (ou seja, extremos de glicemia), as terapias também buscam assegurar a prevenção de lesão em órgãos-alvo.
A escolha da terapia varia de acordo com o tipo de diabetes, porém todos os tipos exigem vigilância sobre a rotina alimentar. Todo paciente deve ser orientado a dar atenção especial à alimentação, especialmente sobre a densidade calórica dos alimentos, assim como às quantidades e qualidade dos carboidratos.
A prĆ”tica de exercĆcios fĆsicos deve ser incentivada em ambos os tipos de diabetes, mas Ć© ainda mais importante no diabetes tipo 2, em razĆ£o do efeito sobre a melhorara da resistĆŖncia insulĆnica e controle do peso.
O tratamento farmacológico tambĆ©m Ć© escolhido de acordo com o tipo de diabetes. O diabetes tipo 1 exige inĆcio imediato e mandatório de insulina, bem como sua manutenção por toda vida. Para o controle do diabetes tipo 2 Ć© importante individualizar a escolha da terapia. Estes pacientes nĆ£o dependem necessariamente do uso de insulina para obter controle glicĆŖmico.
CaracterĆsticas como o tempo de vida com diabetes, status do controle da doenƧa, presenƧa de comorbidades associadas sĆ£o alguns dos fatores a serem avaliados para a escolha do tratamento. AlĆ©m disso, a cirurgia metabólica tem sido fortemente recomendada em casos selecionados, em decorrĆŖncia de estudos demonstrando melhora da qualidade de vida, melhora de desfechos cardiovasculares e redução da mortalidade. Lembramos que chĆ”s ou fitoterĆ”picos nĆ£o tem qualquer respaldo na literatura para ser usados como tratamento do diabetes. Nenhum tratamento deve ser iniciado sem orientação mĆ©dica.
Como previamente mencionado, o diabetes é uma doença crÓnica, no entanto, seu diagnóstico não deve ser encarado como uma sentença de morte. Atualmente com um conhecimento muito mais amplo sobre a doença e o surgimento de novas classes medicamentosas, o paciente com diabetes pode ter a mesma sobrevida de um paciente sem diabetes.
Ā O diabetes tem cura?
Conceitualmente nĆ£o falamos em ācuraā do diabetes, mas nos casos deĀ DM2Ā usamos o termo ācontrole" ou āremissĆ£oā. Obtemos o ācontrole" da doenƧa quando o paciente atinge os alvos glicĆŖmicos na vigĆŖncia de tratamento farmacológico, por outro lado, denominamos āremissĆ£oā quando descrevemos o paciente comĀ DM2Ā em estado de glicemia normal (ou próxima Ć normalidade) e que estĆ” sem terapia farmacológica hĆ” pelo menos 3 meses. O controle dietĆ©tico intensivo associado Ć frequente prĆ”tica de exercĆcios, bem como o emagrecimento podem levar Ć remissĆ£o do diabetes, alĆ©m disso, a cirurgia metabólica tem se mostrado o tratamento mais eficaz para a remissĆ£o doĀ DM2Ā - estudos documentaram uma taxa de 30-63% de remissĆ£o doĀ DM2Ā entre 1 a 5 anos apósĀ BypassĀ GĆ”strico em Y deĀ RouxĀ (a tĆ©cnica cirĆŗrgica atualmente mais recomendada para o tratamento do diabetes).
O problema não vem sozinho
Muitas vezes por ser assintomÔtico nos primeiros anos, o diabetes pode ser subestimado pelo pacientes levando a complicações a longo prazo. O descontrole crÓnico da doença leva a uma significativa piora na qualidade de vida e aumento da mortalidade às custas de doenças cardiovasculares, como infarto agudo do miocÔrdio, acidente vascular cerebral, amputações, além de insuficiência renal, neuropatia (comprometimento neurológico) e retinopatia (acometimento ocular com risco de cegueira). Estima-se que no Brasil a média de anos de vida saudÔvel perdidos entre pacientes DM1 diagnosticados por volta dos 10 anos de idade é de alarmantes 33,2 anos.
Ć possĆvel prevenir o diabetes?
Infelizmente, até o momento, não sabemos como prevenir o DM1. Pesquisas tem avançado no sentindo de tentar identificar fatores que possam evitar ou retardar a destruição das células beta pancreÔticas. Porém, ao contrÔrio do que acontece no DM1, muito pode ser feito para prevenir o DM2.
OĀ DPPĀ (Diabetes Prevention Program) eĀ DPPOSĀ (U.S. Diabetes Prevention Program Outcomes Study)Ā estĆ£o entre os maiores estudos realizados sobre prevenção do diabetes. O mesmos demonstraram uma redução de atĆ© 58% na incidĆŖncia de diabetes em 3 anos e 27% em 15 anos, respectivamente, após intervenƧƵes intensivas no estilo de vida dos participantes. Os principais alvos das intervenƧƵes consistiam em redução de pelo menos 7% do peso corporal, associado a 150 minutos semanais de atividade fĆsica de moderada intensidade, alimentação com controle de calorias e distribuição de macronutrientes (proteinas, carboidratos e gorduras) de maneira individualizada.
Por fim, não podemos esquecer que o cuidado deve ser sempre centrado no paciente. Cada vez mais tem-se focado na individualização das metas e tratamentos, estas são estratégias essenciais para manter a adesão e garantir o controle do diabetes, satisfação do paciente, qualidade de vida e prevenção de outros problemas de saúde no futuro.
Artigo escrito e cedido pela Dra. Claudine Felden - MƩdica Endocrinologista e Metabologista - CRM 34.816
Especialização em Medicina Interna no Hospital de ClĆnicas de Porto Alegre ā RQE: 27680
Especialização em Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal de CiĆŖncias da SaĆŗde de Porto Alegre ā RQE 27681
Pós-graduada em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia
Membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia